Foz do Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, se tornou o principal ponto de entrada de canetas emagrecedoras ilegais no país. A localização estratégica da cidade, com cerca de 30 quilômetros de fronteira e três pontes de acesso internacional, impulsionou o avanço do contrabando destes medicamentos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringe a importação de emagrecedores para o Brasil. Segundo o órgão, há apenas cinco medicamentos autorizados para comercialização no país: Mounjaro, Turzemax, Veltrane, ZPHC e Thera Biolabs.
No entanto, muitos brasileiros vêm usando canetas emagrecedoras trazidas do Paraguai por atravessadores, produtos sem controle sanitário.
O g1 conversou com alguns que adoeceram; veja os depoimentos:
A cena que convenceu o chef de cozinha Paulo Marin, 50 anos, a tentar a tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — era familiar: uma amiga comentava no salão de beleza que “todo mundo estava emagrecendo horrores”. Em poucos dias, ele recebeu o contato de um suposto médico que aplicava a medicação em um consultório improvisado: uma maca, uma mesinha, duas cadeiras.
Nenhuma ampola era mostrada. Nenhum lote. Nenhuma receita.
“Ele aplicava a dose e pronto. Eu não via o frasco. Ele dizia que era endocrinologista, mas nunca vi CRM. Custava R$ 250 por semana.”
A primeira aplicação já trouxe sinais de que algo estava errado: náuseas fortes, tontura, vômito e um hematoma roxo na barriga. Tentou mais uma vez, na semana seguinte. Os sintomas se intensificaram e, além deles, não emagreceu um grama sequer.
Meses antes, Paulo já havia vivido outro episódio — igualmente motivado pela promessa de emagrecimento rápido. Uma conhecida vendia a suposta “caneta do Paraguai”, com quatro aplicações por R$ 1.200, parcelados na maquininha. Ele aplicou numa manhã.
“Horas depois, tontura, diarreia, vômito, enxaqueca. Fui parar no hospital. Joguei o resto fora.
Por dentro das canetas clandestinas
As reações violentas que derrubaram Paulo são velhas conhecidas de quem monitora o mercado clandestino. Para especialistas ouvidos pelo g1, o caso dele expõe o abismo entre o que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exige para um injetável seguro e o que, na prática, vem sendo vendido como tirzepatida fora da rede regulada.
Doutora em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Maria Fernanda Barca afirma que, ao analisar essas canetas em laboratório, já foram identificados:
- soluções com pureza muito abaixo do aceitável,
- frascos sem esterilidade mínima,
- insumos de origem desconhecida,
- tentativas de imitar a concentração usada pela indústria sem qualquer precisão técnica,
- presença de sibutramina, proibida para uso injetável.
Muitos dos danos começam, segundo ela, na cadeia de produção: essas canetas são feitas em ambientes que não seguem normas de assepsia, com matérias-primas baratas e dificilmente rastreáveis. Os frascos superconcentrados, vendidos para múltiplos pacientes, ainda ampliam o risco de contaminação.
Endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, Clayton Macedo confirma a gravidade. Em testes independentes, diz, frascos vendidos como tirzepatida apresentaram purezas entre 7% e 14%, quando o medicamento real exige 99%.
Fonte:G1
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